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quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Entrevista com o Professor Dr. Ricardo Augusto Felício


Ricardo Felício é bacharel e mestre em meteorologia, pela Universidade de São Paulo (USP) e pelo Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE), respectivamente, com pesquisas desenvolvidas na Antártida, onde já esteve por duas temporadas. É doutor em climatologia pela USP, onde atualmente é Professor.

Segue abaixo entrevista realizada com o Professor Ricardo Felício para o Blog Geógrafos, e em seguida um vídeo com entrevista realizada no programa do Jô.


P: Quais são os argumentos científicos utilizados para desmascarar o aquecimento global antropogênico?

Resp.: Primeiramente porque os que fazem a afirmação da coisa não trazem a evidência de que o Homem causou isto. Suas hipóteses não se confirmam, principalmente com os valores observados atualmente dos registros de dióxido de carbono e das temperaturas. Quanto fenômeno natural, o tal aquecimento, que foi extremamente suave, já era previsto de acontecer desde a década de 1970, anos em geral que se apresentaram mais frios, perdurando até o final do século XX. De fato, desde 1998 as temperaturas já indicam arrefecimento, daí a tentativa de “esconder o declínio”, fato registrado no famoso escândalo científico “climategate”. Assim, deverão apresentar, também de forma geral, declínio até aproximadamente a década 2020‑2030, se seguirem os padrões observados no último século.

P: Por que você acha que a questão ganhou tanta ênfase e o número de cientistas que defendem a necessidade de descarbonizar o planeta é maior do que aqueles que o descartam? Num artigo recente publicado pelo Wall Street Journal 16 cientistas dizem que o aquecimento global não existe. Já em outro publicado pela Revista Science, 255 cientistas assinam o artigo que defendem a necessidade de conter o aquecimento global.

Resp.: Na verdade este número de cientistas nunca foi comprovado, principalmente do lado do IPCC, onde a maior parte dos chamados cientistas são na verdade ongueiros, burocratas e pesquisadores de outras áreas, com quase nada de participação em climatologia. De fato, o número de cientistas não é importante, como diria Albert Einstein e Ivar Giaever, cientistas premiados com o Nobel de Física (e não da Paz, como os auto-titulados co-laureados do IPCC e Al Gore). O importante é se os cientistas estão certos. Evocar o princípio da precaução alegando que devemos agir sem plena certeza científica faz com que esta história se torne religião. Se tivermos certeza, agimos, mas se não tivermos, agimos também? Então para quê ciência se todas as decisões já foram tomadas? Enfim, a descarbonização é a atitude mais tola que a humanidade está prestes a tomar, pois o carbono não controla o clima da Terra, sendo então uma ação extremamente cara, infrutífera e no final das contas não resultará em nada. Criar-se-á uma burocracia inútil que só reverterá prejuízos para a humanidade como um todo, especificamente para os países que têm mais necessidades de desenvolvimento. Ressalta-se ainda que acreditar que as mãos humanas conseguem controlar os fluxos de massa e energia planetários só pode ser mesmo um ato de fé.

P: Como o gás carbônico atua na nossa atmosfera?  Qual é seu papel para a existência da vida? Como ele é produzido?

Resp.: Na atmosfera ele se concentra na proporção de 0,033% (supostamente evocam que ele chegou a 0,038%). É um gás traço essencial para a vida na Terra, pois é utilizado pelas plantas e principalmente dentro dos oceanos, na zona fótica, pelo fitoplâncton para a realização da fotossíntese. A esmagadora proporção de dióxido de carbono vem dos oceanos, em primeiro plano. Se eles se apresentarem mais aquecidos, como observado nos últimos 60 anos, excetuando-se os últimos cinco, eles liberarão mais para a atmosfera, pois a solubilidade do gás é inversamente proporcional a sua temperatura. A seguir, temos os vulcões, que todo ano dão uma contribuição significativa. Uma erupção grande é equivalente a toda emissão humana de um ano. Temos cerca de 550 vulcões ativos na Terra. Quanto à emissão dos pobres humanos e toda a sua colossal atividade, esta é menor que a emitida pelo insetos existentes no planeta.

P: Como você explica que a Camada de Ozônio não existe? Como ela pôde ser inventada?

Resp.: O conceito de “camada” é reducionista de algo que é mais complexo e intrincado. Aconteceu que passou o tempo e a coisa virou uma entidade. Não existe tal camada. O que existe é a chamada ozonosfera, parte da baixa estratosfera, onde a probabilidade da existência de gás ozônio é maior, dada certas condições particulares. Assim, o ozônio se apresenta como nuvens ozônicas, e não como camada, as quais permanecem nesta faixa da atmosfera onde a pressão é muito baixa (de 50 a 10mb, quando na superfície, ao Nível Médio do Mar, ela é considerada com 1013,25mb). Nem mesmo o próprio Gordon Dobson dizia “camada”, “buraco na camada” e coisas afins. Eles já sabiam que a variação do ozônio é extremada. De uma hora para outra verificava-se variação de 1000% (mil) nas concentrações do gás, dada a sua alta reação. Ao mesmo tempo, deve-se ressaltar que o gás só é produzido com a ação da radiação ultravioleta da banda C. Sem luz, sem ozônio. Simples assim. Desta forma, nas partes polares, a sua baixa concentração verificada na saída dos respectivos invernos é dada pela ausência de luz solar e não por causa de CFCs ou coisas do gênero. As diferenças marcantes entre os hemisférios da Terra fizeram com que as anomalias sobre o pólo Sul fossem mais acentuadas do que as verificadas no pólo Norte. Os cientistas sempre souberam disto.

P: Você acha que o aquecimento global pode ser um factóide criado por interesses políticos e econômicos para evitar a verdadeira discussão que seriam as questões ligadas á responsabilidade social, como melhoria da qualidade de vida das populações, a poluição dos mares, enfim o descarte da quantidade crescente de lixo, que uma economia movida pelo consumo produz?

Resp.: Sem dúvida. Desvia-se o foco dos nossos verdadeiros problemas para uma coisa sem fundamento. Ao invés de usarmos os nossos melhores recursos financeiros e humanos na resolução e discussão de problemas como saneamento, saúde, educação e criação de resiliência humana frente às adversidades, perdemos tempo em uma fantasia que só tende a agravar a situação atual.




segunda-feira, 2 de abril de 2012

      O blog Geógrafos retoma as atividades neste ano de 2012 com a triste notícia da morte do grande mestre Aziz Nacib Ab'Saber. Ele se foi, mas sua obra ficará registrada por muito tempo e seus estudos e pesquisas continuarão a fazer parte da memória da Geografia e de todos os Geógrafos.
            Nesta nossa homenagem a Ab'Saber apresentaremos alguns tópicos e momentos importantes da sua vida e da sua produção científico-intelectual. Respondendo a nosso pedido Ab'Saber enviou um DVD com o livro e todos os seus artigos e publicações para que divulgássemos aqui no blog. É desta forma, que iniciamos nossa homenagem. Baseado nas informações do livro que conta a sua vida e obra produzimos o texto que mostra a importância do trabalho de campo na vida de Ab'Saber e consequentemente a importância que tem na formação acadêmica dos Geógrafos.

            AZIZ AB'SABER E O TRABALHO DE CAMPO: “ESSÊNCIA DA FORMAÇÃO DOS GEÓGRAFOS”.

            A trajetória de Aziz Nacib Ab'Saber começa com um fundamento essencial na vida e na carreira dos Geógrafos: o trabalho de campo. Foi observando a paisagem nas primeiras viagens que realizou junto com sua família, quando ainda era criança, que despertou nele o senso de observação e a busca pelo entendimento de como funcionam os elementos da paisagem.
            Esta é com certeza a “marca” de Aziz Ab'Saber: suas observações detalhadas e minuciosas das paisagens foram fundamentais para comprovar suas teorias e para a compreensão do funcionamento dos processos ligados ao ambiente físico de diversos lugares.
             A primeira atividade acadêmica de Ab'Saber ao ser aprovado no vestibular, na Universidade de São Paulo, tem a referida “marca”: foi uma excursão com o professor Pierre Monbeig para a região de Sorocaba, Itu, Salto e Campinas. Esta excursão marcou sua vida e foi fundamental pra a definição do rumo que tomaria, como destaca o livro “A obra de Aziz Nacib Ab'Saber”, p.14: A vida de geógrafo de Aziz começou nessa oportunidade, em que ficou observando a paisagem, a sequência de cenários nos diferentes espaços, procurando já fazer suas primeiras interpretações”.
           Na excursão com o professor Monbeig ele tomou conhecimento dos diferentes relevos do Estado de São Paulo, como o litoral, a Serra do Mar, o Planalto Atlântico e a Depressão Periférica, essa última, mais tarde, objeto de suas pesquisas.
           Era tão grande o espírito observador de Ab'Saber que no decorrer da graduação ele procurava sempre fazer a associação das teorias que aprendia na sala de aula e nos livros que lia com a análise in situ. Isto pode ser ilustrado através das “viagens” que ele realizava pela cidade de São Paulo tentando ler a paisagem. Ele ia até os pontos finais das diversas linhas de bonde e a partir deles andava pelos arredores, procurando entender a região metropolitana da época.
            Além das excursões e visitas à campo, Ab'Saber também se interessava pela literatura dos  grandes romancistas brasileiros, que ao longo das suas histórias abordavam a descrição das paisagens ao qual estavam situadas. A obra que mais o impressionou, e que não deixa de ser um estudo de Geografia, foi Os sertões de Euclydes da Cunha. Neste livro há referências ao relevo e ao clima, com especial atenção às secas, além de um esboço geológico e um geográfico da região onde se desenrolou a luta de Canudos.
            Outras passagens da vida de Ab'Saber estão ligadas diretamente as observações empíricas,  como a primeira viagem à Amazônia, realizada sem recursos e sem planejamento, aproveitando as oportunidades que surgiam ocasionalmente, como acontece na maioria dos casos com os estudantes de Geografia, que aproveitam os congressos para conhecer diversos lugares. Era nesta perspectiva que Ab'Saber  promovia reuniões anuais em diversos locais do país. Como as reuniões se davam em pequenas cidades, em lugar de capitais estaduais, houve a oportunidade de desenvolver pesquisas de campo nos arredores dessas cidades.
            Todas estas passagens da vida deste grande Geógrafo, que se destacou justamente pelo amplo conhecimento do território brasileiro, com estudos geológico-geomorfológicos fundamentais   para a Geografia, assim como a diversas ciências ambientais, nos fazem refletir a importância que os estudos, apoiados na análise direta no local onde ocorrem, tem para a formação dos Geógrafos.         Poder aliar a teoria, as técnicas e comprovar e identificar fenômenos e representações nos mapas, cartas etc, é fundamental para ampliar os conhecimentos. Como destaca Ab'Saber: "mais importante do que consultar livros é ler a paisagem".
            Podemos citar também como exemplos de leitura da paisagem os de Leonardo da Vinci e Bernard Palissy, que desenvolveram importantes constatações que se transformaram em elementos  fundamentais para compreender os diversos mecanismos que iniciaram os estudos da geomorfologia. Da Vinci, em uma época em que as explicações sobre os fenômenos naturais eram atribuídas a Deus, observou que os vales eram cortados pelos rios e que as  correntes transportavam materiais de um local para  outro.
            Outros cientistas, de épocas distintas também obtiveram informações importantes e puderam desenvolver e comprovar teorias através da observação no campo. Atualmente, a incorporação de equipamentos e de técnicas mais avançadas auxiliam os pesquisadores e tornam o trabalho de campo mais efetivo, entretanto, os ensinamentos e as teorias obtidas através de observações, como as de Ab'Saber e de outros pesquisadores são muito significativas, principalmente para a Geografia, que tem como objeto de estudo a descrição e compreensão da terra, levando em conta a ocupação humana.


terça-feira, 22 de novembro de 2011

Geógrafo propõe nova divisão territorial do Brasil

Diante da repercussão referente à divisão do Pará, e criação dos estados de Carajás e Tapajós. O blog Geógrafos reproduz uma notícia veiculada no dia 11 de novembro de 2011, pelo site de notícias da BAND, no qual José Donizete Cazzolato, geógrafo pela Universidade de São Paulo e pesquisador do CEM-Cebrap (Centro de Estudos da Metrópole) propõe uma reestruturação do Brasil. A partir desta proposta incentivamos aos leitores do blog a emitir suas opiniões e considerações a respeito deste tema, que com certeza produz consequências no planejamento do território nacional. O que vocês acham desta reestruturação?


Proposta

Mais de 20 anos após a criação do Estado do Tocantins, o Brasil volta a viver o debate sobre a reestruturação de seu mapa político, com a possível divisão do Pará em três unidades. Na esteira destes acontecimentos, um geógrafo propõe uma nova divisão, com a criação de 40 unidades federativas, sendo 37 Estados e três territórios. A tese está no livro: “Novos Estados e a divisão territorial do Brasil – uma visão geográfica”. 
José Donizete Cazzolato, geógrafo pela Universidade de São Paulo e pesquisador do CEM-Cebrap (Centro de Estudos da Metrópole), realizou o trabalho a partir de projetos para a criação de novos Estados, enviados por parlamentares ao Congresso Nacional, e os adaptou de acordo com uma padronização teórica. “Muitos desses projetos são muito interessantes, mas outros não têm nenhum embasamento técnico e por isso são inviáveis”, diz ele. 
Desde a promulgação da atual Constituição, em 1988, há ao menos 30 projetos para criação de novos Estados, nas cinco regiões do País. “Temos várias propostas na fila. Algumas são extintas, rejeitadas, mas depois voltam a ser apresentadas”. 


Pará


Em dezembro, a população paraense participará de plebiscito para decidir a divisão do Pará e a criação de mais dois Estados: Tapajós e Carajás. Cazzolato defendeu a iniciativa. 
“Já passamos pela criação de vários Estados - como Alagoas e Paraná - que atendeu a interesses políticos. Em outros casos, como Mato Grosso do Sul, não houve diálogo. Desta vez, foi utilizada a via mais correta”. 
O geógrafo, aliás, também previu em seu estudo a criação de três Estados, com as mesmas capitais. A única diferença está na distribuição de território entre o novo Pará e o futuro Tapajós. “O que vemos hoje, com este plebiscito, é mais um capítulo recorrente na história do Brasil, de luta pela divisão do território. É uma ópera com atos bem variados”. 


Critérios
Nova divisão daria ao Brasil 37 Estados e três territórios
Divulgação


Para Cazzolato, é preciso atender a alguns requisitos para que a viabilidade dessas novas unidades federativas seja garantida. “Um novo Estado precisa ter uma extensão razoável, além de uma população expressiva e um determinado número de municípios. Várias das propostas levadas a Brasília não atendem a estas exigências”.
Ele sugere inclusive que a União crie determinações legais sobre o assunto. “Hoje não temos critérios técnicos. Quantos municípios precisa ter nesta região? Qual a área mínima? Somente atendendo a estes requisitos o projeto poderia seguir em frente, senão qualquer dia alguém vai propor transformar o bairro de Santo Amaro, em São Paulo, em um novo Estado”. 
Além do tripé população-área-municípios, Cazzolato também aponta um fator importante para a criação de um novo Estado: a identidade regional. “É preciso seguir uma tendência, uma realidade geográfica, já que existe uma independência em certas regiões, com perfis próprios”. 
Além disso, o geógrafo da USP também sugere a criação de um calendário específico. “As alterações poderiam ocorrer a cada dez ou 20 anos, após amplo estudo. Se não, teremos criação de novos Estados a cada ano, o que traria complicações”.


Novos Estados


Segundo o projeto de Cazzolato, os Estados que sofreriam as divisões mais intensas são Bahia, Minas Gerais e Amazonas. “Vários projetos enviados ao Congresso previam dividí-los. Estudei estes projetos e apliquei a conveniência geográfica”. 
O Amazonas perderia parte do território para o Acre, que seria ampliado, e para a criação do território de Solimões. Extintos em 1988, os territórios eram unidades federativas de menor autonomia, em que os governadores eram nomeados pelo governo federal. 
Mas as alterações mais intensas ocorreriam em Minas Gerais, com a criação de mais dois Estados: Triângulo Mineiro e Montes Claros. Este último Estado, aliás, abarcaria também uma parte da atual Bahia. 
A Bahia, por sua vez, cederia território para três novas unidades. Além de Montes Claros, a região sertaneja à oeste, com capital em Barreiras, também se emanciparia de Salvador. Mas ele destaca a criação de um novo Estado com municípios à margem do Rio São Francisco. 
“Estas cidades hoje têm uma identidade regional forte, inclusive realizando projetos políticos e econômicos em conjunto. Seria interessante criar este Estado, unindo cidades que hoje são da Bahia e Pernambuco”.  
Outro Estado que poderia ser criado, desta vez no Sudeste, seria no interior paulista, com capital em Campinas. “O Estado de São Paulo se reduziria aos vales do Paraíba e do Ribeira, além da região metropolitana. Mesmo assim, seria muito rico e populoso”.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Regiões Culturais de um País de Escala Continental

Solicitamos ao Geógrafo Aziz Nacib Ab’Saber que escrevesse um artigo para ser publicado no blog Geógrafos. Para nossa satisfação, ele nos respondeu enviando vários textos, fotos e artigos de sua autoria, elaborados desde 1946 até o ano de 2010. Desta forma, apresentamos o texto “Regiões Culturais de um País de Escala Continental”, texto inédito que compõe o livro que descreve a obra e a vida deste renomado cientista brasileiro.



Aziz Nacib Ab’Saber


            Uma busca velada para o reconhecimento de áreas culturais, em um país de escala continental, vem ocorrendo desde os meados do século. Não se pode negar, entretanto, que a efetiva identificação de regiões ou células culturais modernas, diferenciadas por critérios antropológico-culturais, vem sendo relegada ao improdutivo compartimento das tarefas para o futuro.
            Ao longo do tempo, desde o século XVI, sucederam-se experiências classificatórias, sob os mais diferentes critérios e exigências de modelos administrativos (...) E, mais recentemente, uma fértil classificação de domínios morfoclimáticos e fitogeográficos.
            Da genialidade de um Martius — como fruto maduro de suas viagens — ficou estabelecido em mapa o mosaico básico dos grandes domínios de natureza no Brasil (1858). Detalhamentos e acréscimos importantes foram produzidos por Saint Hilaire em suas numerosas viagens pelo interior do país. À primeira geração de viajantes naturalistas sucederam-se as observações pontuais de Darwin, as mal-sucedidas investigações de Louis de Agassiz, e as múltiplas e fragmentarias pesquisas de Hartt. Entrementes, a difusão dos conhecimentos pioneiros acumulados sobre os domínios de natureza foi quase zero, por quase um século. Pelo contrário, o conhecimento ficou circunscrito ao círculo restrito dos eruditos, através de uma consciência epidérmica e muito pouco criativa. Governantes, políticos e burocratas preferiram sintetizar o território total pela ótica do estadualismo e unidades administrativas. Quando muito se atreveram a falar no arquipélago brasileiro, centrando-se na ausência de integração das diferentes regiões humanizadas, relativamente separadas entre si, numa visualização puramente demográfico-social de uma certa época. Outros reduziram o tratamento do espaço total sob a simbólica e inútil designação de “dois Brasis”.
            No ensino, por um tempo que atinge até a década dos 40 do presente século, imperou uma vigorosa e improdutiva geografia descritiva, centrada em uma infindável nomenclatura de acidentes naturais, em divisões simplificadas e genéricas dos diferentes quadrantes do território. Quando não se fazia — ao não ser — uma divisão simplista e teimosamente tripartite dos planaltos e planícies do grande e mal conhecido país. De qualquer forma, nessa faixa dos domínios da natureza, foi lenta e sofrida a retomada dos conhecimentos pioneiros, iniciados pelos grandes viajantes e naturalistas do século passado. Todas as constituições brasileiras falaram apenas em uma divisão do espaço que comportava Estados, territórios e municípios. Enquanto a Constituição de 1988, ao intentar uma inovação, considerou como patrimônio nacional apenas a Amazônia, o Pantanal Mato-Grossense, as matas atlânticas e a Serra do Mar, numa prova de empirismo e falta total de responsabilidade intelectual e científica de toda uma geração de constituintes, provenientes de diferentes áreas do país.
            No vasto conjunto das Américas, entretanto, muito cedo se pode reconhecer áreas culturais de grupos étnicos e linguísticos primários, herdadas da Pré-História (...) Pesquisas linguísticas e culturológicas que envolveram cientistas alemães, franceses, norte e sul-americanos, incluindo numerosos brasileiros, nas ultimas décadas. Mas persiste o contraste entre o mapa das áreas culturais dos grupos humanos do passado em relação ao esperado mapeamento das áreas culturais modernas. As raízes dessa discrepância são múltiplas e até certo ponto justificáveis pelo fato de envolverem sérias questões têmporo-espaciais e de dinâmica populacional. É certo que em seu espaço total um pais das dimensões e ordem de complexidade como o Brasil apresentará mapas de áreas culturais bastante diferenciados entre si, no seu detalhamento regional e sub-regional. Ninguém se lembrou que ao sabor amargo do subdesenvolvimento e das sucessivas correntes de migrações internas, e injeções de grandes contingentes de imigrantes procedentes das mais variadas regiões do mundo, tudo se complica para a tarefa de elaboração do quadro das áreas culturais modernas. Na ausência desses quadros de referencia temos que realizar um desesperado esforço de recomposição dos cenários perdidos, levando em conta os momentos que precedem de imediato as grandes rupturas, responsáveis por modificações e aceleração de processos diferenciadores.
            Uma outra abordagem disponível é aquela introduzida por Bernard Kayser, referente as divisões dos espaços geográficos e econômicos dos países subdesenvolvidos. Na base de critérios múltiplos, o grande geógrafo de Toulouse reconheceu nos países do Terceiro Mundo — e, sobretudo, naqueles dotados de grandes espaços geográficos — uma serie de tipos de regiões, dotadas de características e problemas bastante diferentes. Baseado em seus conhecimentos sobre diversos países sujeitos a um desenvolvimento desigual, Kayser reconheceu regiões indiferenciadas, regiões submetidas a planejamentos revitalizadores, regiões de especulação agrícola, bacias urbanas e regiões de organização complexa, ditas auto-organizadas. Trata-se de uma tipologia genérica de especialização que, sujeita a algumas modificações e adaptações, pode ajudar em muito o entendimento das funções, jogo de infra-estruturas e problemas sociais, econômicos e ambientais do conjunto dos setores que compõem os países subdesenvolvidos. Um classificação que de resto possui um grande potencial de aplicabilidade a um país com as características do Brasil.
Pirangi - Quixadá, foto de Aziz Ab'Saber.

Vale do Poti entre Crateús e Oiticica, foto de Aziz Ab'Saber.

O Jaguaribe em Iguatu, foto de Aziz Ab'Saber.

Inselbergs de Quixadá, foto de Aziz Ab'Saber.




segunda-feira, 30 de maio de 2011

CREGEO: Um Conselho próprio para os Geógrafos?

Neste 29 de maio dia do GEÓGRAFO, data de grande relevância para a nossa categoria, nos permitimos fazer uma reflexão sobre os caminhos que percorremos até aqui e, qual é o futuro que a nossa profissão nos reserva.
Com o passar dos anos, inegavelmente, há uma tendência progressiva de crescimento e valorização dos Geógrafos. O “mercado” começa a perceber a nossa importância no momento em que nossas atribuições tornam-se fundamentais no desenvolvimento de setores técnicos e de pesquisas antes restritas a outras áreas.
Até mesmo por desconhecimento é que empresas, órgãos governamentais e instituições possuem dúvidas relativas às habilitações que podemos realizar. Mas, a partir da inserção gradual dos Geógrafos nestas organizações o reconhecimento das atividades desenvolvidas vai adquirindo força e a repercussão do trabalho realizado torna-se significativa.
                 
                                       http://www.new.divirta-se.uai.com.br/

É claro que ainda temos muito a conquistar, principalmente no que diz respeito a autovalorização profissional. Precisamos compreender que é através da organização que poderemos incluir nossa profissão no mesmo patamar alcançado por áreas que hoje dominam o mercado onde também podemos atuar.
Neste contexto e diante das notícias vindas a respeito da desvinculação dos Arquitetos do sistema CONFEA-CREA, com a criação do CAU-BR, deve surgir em nós Geógrafos uma motivação para a criação do nosso conselho próprio.
O exemplo dos arquitetos, claro que analisado detalhadamente, serve para iniciarmos um debate amplo sobre este possibilidade. Por mais boa vontade que possa existir através do CREA, a representação dos Geógrafos é de certa forma ineficiente, pois, as câmaras temáticas deste conselho possuem um reduzido número de profissionais da Geografia.
Neste caso, surgem algumas indagações que precisamos também considerar: os espaços muitas vezes estão disponíveis, mas há participação? Assim, retomo o que falei anteriormente, é preciso organização. Precisamos discutir sobre quem vai participar do conselho dos Geógrafos - que este blog lança ambiciosamente sob o nome de CREGEO (Conselho Regional, e federal, de Geógrafos) - Somente os bacharéis? Ou poderemos agregar a todos os graduados em Geografia?
São questões de grande relevância e da qual temos sim que iniciar um debate. Ainda mais nesta data que representa o dia dos Geógrafos e simboliza os avanços e a história percorrida por todos nós atualmente.
Parabéns a todos os Geógrafos e que o CREGEO não seja apenas um sonho!

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Estágio profissional em Geografia: formação, prática e reconhecimento

Roberto Verdum
Departamento de Geografia/IG/UFRGS


Quando se discute a formação e o papel do geógrafo na sociedade, necessariamente, questionam-se a construção histórica dos referenciais deste profissional e a sua responsabilidade social frente às demandas que se apresentam como fazendo parte de suas atribuições profissionais. Neste sentido, é fundamental questionar nossa formação, o reconhecimento e a atuação profissional. Estes três processos estão imbricados e revelam-se essencialmente díspares no conjunto dos profissionais de Geografia no país.
Atualmente, avalia-se que dois conceitos são básicos na produção geográfica brasileira: planejamento territorial e ambiental. O primeiro se formaliza, sobretudo a partir da construção das economias após a II Guerra Mundial, que impulsionaram as primeiras tentativas de planificação territorial. Já as práticas relacionadas ao conceito de ambiente são derivadas das pressões sociais e das políticas de proteção à natureza, geradas pela própria disfunção dos programas de planejamento territorial. No Brasil, essas dinâmicas sociais culminam com a elaboração das políticas relativas à avaliação dos impactos ambientais e seus respectivos instrumentos – Estudos e Relatórios de Impacto Ambiental - (EIA e RIMA) – a partir da década de 1980. Neste contexto, entende-se que aos geógrafos caberia buscar e assegurar a dinâmica das suas práticas profissionais operando os conceitos de ambiente e território na perspectiva do planejamento. Inclusive no seu aspecto preventivo e prospectivo. Assim, caberia à Geografia estudar, definir e caracterizar as configurações espaciais dos fenômenos através do conceito de território e ambiente com o uso das diversas técnicas inerentes a sua formação (p. ex.: cartografia, foto-interpretação, sensoriamento remoto, etc.).
Destaca-se que, para o estudo das configurações espaciais dos fenômenos, três níveis de análise são fundamentais:
a) poder distinguir o(s) fenômeno(s) a ser(em) estudado no espaço geográfico;
b) poder analisar o dinamismo diferenciado do(s) fenômeno(s): escala temporal;
c) poder analisar e representar a dimensão do(s) fenômeno(s): escala espacial.

Assim, reconhecer a necessidade de formação e de capacitação do profissional nesta perspectiva é fundamental, para que este possa responder à sociedade, a partir das suas demandas, além de poder elaborar outras proposições de estudos ainda não manifestadas por ela.
Neste sentido, é necessária a reflexão cotidiana entre os estudantes e os profissionais da Geografia sobre como fazer esta área do conhecimento ser (re) conhecida e a necessidade de se fazer reconhecer como importante profissional disponível à sociedade. Profissional este capaz de refletir, elaborar, propor e implantar projetos essenciais à melhoria de determinadas demandas sociais. Isto é, tanto aquelas ações profissionais consideradas diretamente aplicáveis em relação a essas demandas, como aquelas que são fundamentais para a construção do aprimoramento teórico e metodológico da Geografia.


Quando nos propomos a trabalhar com a disciplina GEO 01009 - Estágio Profissional em Geografia, do Departamento de Geografia - IG – UFRGS, tínhamos a intuição que esta disciplina teria uma importância significativa no que se refere à formação dos alunos do curso de graduação, assim como na externalização  das atividades profissionais que concernem ao bacharel em Geografia. Neste sentido, iniciamos nossa estratégia a partir de contatos com instituições públicas e privadas realizando um levantamento preliminar dos locais onde existiam colegas geógrafos em atividade. Além disso, ao iniciarmos a primeira turma em 1999 procuramos ouvi-los na tentativa de atender os locais de seu interesse para a realização do estágio, assim como das atividades a serem desenvolvidas. Desta forma, estrategicamente iniciávamos os primeiros contatos com profissionais geógrafos ou não, que trabalham em instituições potencialmente interessantes para o desenvolvimento das atividades do estagiário e, por conseguinte, para o Geógrafo. Ou seja, não só criávamos a vaga para a realização do estágio, mas, também, o (re) conhecimento das potencialidades desse profissional.
Hoje, pode-se avaliar que os resultados alcançados ultrapassam as expectativas, tanto em quantidade como na qualidade dos estágios oferecidos na disciplina. Como características essenciais das experiências desenvolvidas pelos estagiários, destacam-se as várias temáticas capazes de serem oferecidas, tais como: estudos de caracterização e gestão regional, planejamento urbano, estudos de caracterização e estratégias fundiárias, análise de processos e dinâmicas ambientais, educação ambiental, elaboração e gerenciamento de bancos de dados e geração de produtos cartográficos digitais. Em relação aos problemas propostos para os estagiários nas temáticas territorial e ambiental, verificamos uma diversidade que acompanha o leque de possibilidades de estágio, que crescem a cada semestre.
Reforçamos que, em relação a essas experiências de estágios, que poderiam ser pensadas como atreladas somente ao meio acadêmico, os resultados gerados são muito interessantes. Inclusive, merecem ser ampliadas pela adoção de estratégias da Comissão de Carreira do Curso, assim como das associações profissionais, AGB-PA e AGP-RS. Como exemplo, há a possibilidade de se efetivar, posteriormente aos seus estágios curriculares, a continuidade das atividades dos alunos como estagiários remunerados e/ou como técnicos na perspectiva da futura contratação como geógrafos. Além disso, no contexto das relações que se estabelecem com as instituições que os acolhem, projeta-se a possibilidade do surgimento de projetos mútuos entre o Departamento de Geografia do Instituto de Geociências da UFRGS e essas instituições. Este fato tem incentivado e consolidado a política adotada na disciplina, assim como, tem proporcionado a ampliação do reconhecimento do profissional nas demandas sociais. Demandas estas que não só se restringem a uma mera questão de mercado, mas que buscam construir outras referências que possibilitem a atuação profissional e o aprimoramento técnico-científico associados a elas.


Dicas de leitura:

CALLAI, Helena Copetti. A Formação do profissional da Geografia. Ijui: Ed. Unijui, 1999. v1. 80p.

HEIDRICH, Álvaro Luiz & VERDUM, Roberto. Estágio profissional em Geografia pela UFRGS. Porto Alegre: Associação dos Geógrafos Brasileiros – Seção Porto Alegre. Boletim Gaúcho de Geografia. nº 27. p. 166-70. 2001.

PEDROSO, Nelson Garcia (org.) Geógrafos legislação, formação e marcado de trabalho. São Paulo: Associação dos Geógrafos Brasileiros. 1996.

VERDUM, Roberto. Perícias e laudos técnicos: Um espaço para uma nova prática científica. In: VERDUM, Roberto e MEDEIROS, Rosa Maria Vieira. RIMA: Relatório de impacto ambiental - legislação, elaboração e resultados. Porto Alegre: Ed. da Universidade da UFRGS, 5° edição. 2006.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Geógrafos: história e atribuições.

A profissão de Geógrafo no Brasil só foi regulamentada pela lei nº 6.664, de 26 junho 1979, entretanto, a atuação deste profissional já vem de longa data. Conta a história que os chineses foram os primeiros geógrafos dos quais se tem notícia. O primeiro compêndio geográfico da China foi elaborado no século IV a.C. e uma enciclopédia geográfica chinesa de 200 capítulos data de 993 d.C. No Brasil a historia dos geógrafos começou em 1808, quando a família real veio para a colônia e trouxe os engenheiros geógrafos, com o objetivo de estudar o território.
A contribuição dos então Geógrafos foi significativa, pois, eles possuíam a noção de espaço. Em épocas primitivas esta noção era fundamental, pois, quando os povos antigos passaram de sedentários para nômades, a localização dos lugares, apontando as direções passou a ser de grande valia para estas populações.
A história do pensamento geográfico se inicia com os gregos, os quais foram a primeira cultura conhecida a explorar a Geografia como ciência e filosofia. Podemos citar Tales de Mileto, Heródoto, Eratóstenes, Hiparco, Aristóteles, Estrabão e Ptolomeu, como os maiores contribuintes.

                                                      O Geógrafo  (1668-1669), de Johannes Vermeer. 

No Brasil, a profissão começou a se fortalecer na década de 30, durante o governo de Getúlio Vargas, quando foram criados o Instituto Geográfico e Cartográfico (IGH), o Conselho Nacional de Geografia e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE).
Em 1934 foi fundada a Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB) e se iniciavam o curso de geografia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP), iniciando a consolidação da Geografia no Brasil.
Atualmente, os cursos de Geografia (graduação e pós-graduação) estão presentes em inúmeras instituições de ensino superior do Brasil, contribuindo para a consolidação desta ciência. Os Geógrafos estão sendo mais valorizados e as suas habilitações tornam-se cada vez mais necessárias e fundamentais na organização espacial e no planejamento, tanto urbanos como ambiental.
A noção anterior existente sobre os Geógrafos e sua ciência, a Geografia, era de que não passavam de simples memorizadores de capitais e de termos relacionados à configuração física de territórios.
Entretanto, sabemos da importância e da infinidade de atributos relacionados à Geografia e a seus profissionais. Os geógrafos estão habitados entre outras atividades a realizar a delimitação e caracterização de regiões, sub-regiões geográficas naturais e zonas geoeconômicas, para fins de planejamento e organização físico-espacial; ao equacionamento e solução, em escala nacional, regional ou local, de problemas atinentes aos recursos naturais do País; a interpretação das condições hidrológicas das bacias fluviais; ao zoneamento geo - humano, com vistas aos planejamentos geral e regional; à caracterização ecológica e etológica da paisagem geográfica e problemas conexos no aproveitamento, desenvolvimento e preservação dos recursos naturais e ao levantamento e mapeamento destinados à solução dos problemas regionais.
A exigência do plano diretor nas cidades com população acima dos 25 mil habitantes valorizou significativamente o trabalho dos Geógrafos, pois, além de toda a capacidade técnica, esses profissionais estão inseridos e levam em conta a estrutura social existente nos aglomerados urbanos.
Esta característica se deve aos dois grandes ramos que a Geografia se divide: a física e a humana. A Física está relacionada ao estudo dos elementos naturais da superfície terrestre, impactos ambientais, climatologia, biogeografia, topografia, etc. Já a Humana se detém nas relações entre o ambiente e o ser humano, como a geopolítica, a população, geografia agrária, etc.
São justamente os conhecimentos integrados, físicos e humanos, que propiciam aos Geógrafos a liderança em equipes multidisciplinares de planejamento e gestão. Conhecer os aspectos físicos, a gênese dos fenômenos ambientais, a descrição dos eventos geológicos, associando-os com a ocupação humana, seu processo de ocupação e as características da população, contribuem para que um planejamento se torne eficiente.
Neste contexto, através da exposição das suas competências e atribuições, é fundamental que os profissionais formados e os que estão na universidade, busquem uma valorização ainda maior. Para isso, é necessário, em primeiro lugar um conhecimento mais amplo sobre a legislação que rege o exercício profissional, alem disso, é preciso que os Geógrafos ocupem mais os espaços em órgãos e empresas de monitoramento e gestão ambiental, e sejam mais protagonistas, priorizando a qualificação profissional, pois, estamos em uma época onde as profissões tendem a se tornar cada vez mais interdisciplinares. Assim, quem sabe em um futuro próximo possamos fundar no Brasil o nosso próprio conselho, que atenda exclusivamente às nossas aspirações.